. SINJAC - Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Acre
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Rio Branco, Acre,
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Notícias do Sinjac

O dia em que eu saí da minha banda para ser jornalista

Giselle Lucena *

É estranho não é? Seria mais sonoro se eu dissesse que larguei tudo para investir numa aventura radical com a minha banda de rock. Talvez fosse até o normal, portanto, não teria nada de radical nisso. Ainda penso duas vezes antes de tocar no assunto com medo de despertar algum indício de arrependimento – o que seria bem natural a meu ver, aliás, quanto mais decisões a gente toma, mais chance a gente tem de se arrepender, certo?

E vários músicos – principalmente os de rock – se vangloriam: “ah, eu larguei o último ano do curso de medicina para me dedicar à música” (tá, tudo bem, eu peguei talvez o exemplo mais apelativo, medicina não tem nada haver com jornalismo, mas afeta melhor o senso comum, ok?). E assim, quando uma em infinitas bandas de rock do mundo consegue chegar ao topo das paradas de sucesso, mostra-se logo a dedicação e o amor que os integrantes têm para a banda e para a música.

Porque Fulano largou o Direito, Cicrano largou a família e Beltrano largou o gato, cachorro, periquito e papagaio... E eu larguei a minha banda. (oh, céus, onde eu estava com a cabeça mesmo?). Sim, amo (ou amava?) a minha banda, as nossas músicas, as nossas rotinas de ensaios, shows, viagens, etc. No entanto, eu quero, preciso e devo terminar minha faculdade!

Independente de qualquer coisa, antes de qualquer topo de qualquer parada de sucesso, eu preciso dum canudinho que vai provar que eu completei o curso superior de jornalista. Mas não só isso, eu quero chegar lá me sentindo preparada não para subir num palco e fazer um show de arrasar. Quero sim, estar pronta para viajar e fazer uma matéria sobre os costumes das mulheres chinesas (elas são umas gracinhas), cobrir uma grande mostra de arte moderna (tem um tom irônico aqui), e até ser professora e ensinar meus alunos a serem artistas, digo, jornalistas.

Adeus palcos dos Gritos Rocks, adeus palcos dos Varadouros, adeus palcos das Catraias... É, o dia em que eu saí da minha banda para me dedicar à faculdade eu me senti meio louca. Mas os grandes acontecimentos desse mundo que deram certo não nasceram de puras sanidades mentais (disso eu tenho quase certeza).

E nesse mesmo dia, eu me senti nadando contra a maré. Por incrível que pareça, acho que ninguém se preocupa mais com o futuro profissional de ninguém. As coisas nesse mundo mudaram mesmo. Quando eu falei: “vou sair da minha banda, preciso de mais tempo para estudar”, quase fui apedrejada, acredita? Pois é. Gente, ter banda não é fácil. É uma profissão também, assim como um outro trabalho, assim com ser estudante. É preciso organização, tempo, dedicação, responsabilidade, paciência, e mais uma porção de coisas para fazer dar certo.

Eu não conseguiria – aliás, eu nunca pensei nisso – medir o grau de prazer entre fazer música e fazer uma entrevista e escrever uma matéria. Ah, fala sério, são coisas incomparáveis e eu preciso escolher. E eu não quero ser a do contra, eu apenas quero ser normal. Portanto, adeus banda! E que venham as pautas, os releases e os furos de reportagens. Felizes daqueles que conseguem conciliar. Quem sabe um dia eu chego lá.

E sabe do que mais? O interessante é que agora, definitivamente, eu não vou falar como baixista de banda ou como musicista (apesar de nunca ter me auto-intitulado assim), falarei apenas como jornalista. Portanto, adeus também às crises existenciais. Sei que vai ser difícil deixar de ser a “Gigi Rock Star” (como brincavam comigo lá na faculdade), e, mais ainda, deixar de me sentir a baixista da Blush Azul. Sei que não vou poder mais me utilizar de ensaios e shows como desculpa para faltar aulas, fazer provas em outros dias e, muito menos, para sair mais cedo do trabalho.

No entanto, melhor que tudo isso, eu sinto como se o mundo se fechasse de um lado, mas que de outro, um universo inteiro estivesse à minha espera. E eu vou, não dividida, dessa vez eu vou de corpo inteiro, assumir, de fato e exclusivamente, um papel jornalista, acreditando realmente que devemos viver nossos sonhos no presente sem deixar de ter planos para o futuro. Lidar com as palavras vai ser, enfim, a minha arte principal.

* Acadêmica de Jornalismo, Assessora de Comunicação da Fundação de Cultura Garibaldi Brasil e ex-baixista da banda Blush Azul.

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Foto/Marcos Vicentti Giselle Lucena Página principal